Morre o jornalista Arlindo Xavier

Morre o jornalista Arlindo Xavier

Ji-Paraná, RO - Morre aos 91 anos de idade vítima de AVC o jornalista Arlindo Xavier. Ele estava internado desde de as seis horas no HCR onde morreu por volta das 17 horas. Ele teve um AVC hemorrágico profundo.  

No domingo, Arlindinho havia levado uma queda e machucado a coluna, foi medicado, e voltou pra casa normalmente. Às 5 horas de hoje teve um AVC o que provocou a morte.  

Arlindinho, com era carinhosamente chamado,  era duro na queda. Em 2014 fez uma angioplastia e colocou cinco estêncis. Ele dizia que estava novo em folha e não morreria do coração porque a reforma de  

Arlindo deixa mulher, seis filhos e quatro netos e uma legião de amigos e admiradores.  Arlindo era natura do litoral de São Paulo e nasceu no dia primeiro de novembro de 1926.

Em 2017 o Arlindo Xavier concedeu entrevista ao jornalista Sílvio Santos – o Zé Katraca, um dos maiores contadores de história de Rondônia.

A Folha toma a liberdade  de publica precioso material que revela o talento de dois grandes profissionais.
No tempo que Ji-Paraná era Vila de Rondônia

Poucas pessoas são tão carismáticas como o Arlindo Xavier, bom papo, divertido e o que é melhor, bom contador de história e estórias. Arlindo faz parte da história de Ji-Paraná uma vez que por ali chegou quando o nome da localidade era “Vila de Rondônia”. “Isso aqui não era nada, não era distrito nada era apenas um aglomerado de casas”.

Foi justamente o descaso do governo do Território Federal de Rondônia para com a Vila que levou seus habitantes a fundarem a Sociedade Amigos de Vila de Rondônia – SAVIR que era uma espécie de prefeitura onde a sociedade se reunia para tomar as decisões em favor da Vila, além disso, ali se dançava a e se faziam as festas”.

Há tempo queríamos entrevistar o Arlindo Xavier acontece que toda vez que nos encontrávamos ele estava correndo, ou para se encontrar com alguma autoridade ou para a rodoviária para embarcar para Ji-Paraná.

Quarta feira passada durante o lançamento do Prêmio Sinjor de jornalismo na Casa de Cultura Ivan Marrocos lá estava ele, juntamente com o advogado Caetano, para nossa sorte ele ficou bem pertinho da gente na hora dos discursos e ali ao pé do seu ouvido o convidei para um bate papo na sala da direção da Ivan Marrocos gentilmente cedidas pelo administrador Robson Oliveira. Antes mesmo do término da solenidade comecei a instigá-lo, digo assim porque Arlindo não queria conceder a entrevista alegando falta de tempo, a conversa começou mesmo assim e eu liguei o gravador para não perder nada.

Finalmente quando vimos estávamos terminando o bate papo que os senhores vão acompanhar a partir de agora. Só que o que está reproduzido aqui não é nem um décimo das histórias do Arlindo Xavier. “Estou escrevendo minha biografia a pedido da UNIR e aí sim você vão saber de toda minha história” afirma Arlindo Xavier.

ENTREVISTA

Zk – De onde surgiu essa pessoa tão carismática que se chama Arlindo Xavier?

Arlindo Xavier – Eu sou Ilhéu!
Zk – Você quer dizer que nasceu em Ilhéus na Bahia?

Arlindo Xavier – Não. Sou Ilhéu porque nasci numa ilha no Oceano Atlântico no estado de São Paulo.
Zk – E Rondônia?

Arlindo Xavier – Vim pra Rondônia há 34 anos. Precisamente para Vila de Rondônia hoje município de Ji-Paraná.
Zk – Como o era Vila de Rondônia no tempo que você chegou lá?

Arlindo Xavier – Foi o lugar onde mais eu bebi pinga (cachaça) na minha vida. O ambiente em Vila de Rondônia era agradabilíssimo, o incrível era que naquela época havia muita violência, mas a vida normal existia muita solidariedade, tanto que nós conseguimos fazer, talvez o maior clube do Estado que é o Vera Cruz que nasceu a partir de 1974. Fui do tempo do João da Calama que foi assassinado depois, peguei o tempo quando o INCRA começou a fazer a reforma agrária em Ouro Preto em 1972. Vi a Cascavel chegar aqui.
Zk – A Eucatur?

Arlindo Xavier – A União Cascavel o Assis e a dona Nair chegaram aqui em 1972, foram até o Acre e lá não deu certo e então eles vieram aqui pro interior de Rondônia e aqui receberam o apoio do INCRA e começaram a trazer gente pra cá.
Zk – O que você veio fazer em Rondônia, você é jornalista?

Arlindo Xavier – Não, não sou jornalista não, escrevi muito em jornal nos velhos tempos. Cheguei a escrever aqui no Estadão do Norte por pouco tempo, na verdade escrevi mesmo no Paraná e em Mato Grosso em Campo Grande onde tínhamos um jornal e através desse “jornaleco”, fizemos uma campanha muito grande pela divisão de Mato Grosso o que veio a se consolidar em 1977 com o Presidente Gaisel.
Zk – Ainda estou esperando a resposta sobre o que você veio fazer em Rondônia?

Arlindo Xavier – Na verdade vim pra Rondônia porque morreu uma filha nossa que já era mocinha e ficamos sem condições de viver em Mato Grosso então eu e minha mulher decidimos que iríamos morar num lugar bem distante, bem longe, bem isolado mesmo e que eu não me metesse em política. Acontece que quando cheguei aqui acabei me envolvendo. 
Zk – Esse envolvimento com a política aqui em Rondônia aconteceu aonde?

Arlindo Xavier – Entrei no estado através da Vila de Rondônia e de lá vim pra Porto Velho para trabalhar com o Camelo (Frederico), fiz a contabilidade da Cia Rondoniense de Reflorestamento e eles tinham a Rondonacre ou era Rondoacre uma coisa assim. O Camelo tinha uma máquina de beneficiar arroz e esse arroz beneficiado era vendido pra Manaus. O Camelo insistiu muito pra ficar em Porto Velho, mas eu queria ficar num lugar sossegado, que queria mesmo ficar fora da política e o Camelo era amigo do governador Marques Henrique do Emil Gorayeb, Hiran Batista mesmo assim resolvi voltar para Vila Rondônia e montei o negócio que eu sabia fazer realmente que era contabilidade, montei um escritório de contabilidade, trouxe minha família e meus filhos cresceram aqui, gostam daqui, tanto que nenhum deles quer sair daqui.
Zk – Quem comandava Vila de Rondônia?

Arlindo Xavier – Abel Neves foi quem começou a fazer uma administração de verdade. Tina uma Associação chamada Sociedade dos Amigos de Vila de Rondônia – SAVIR, onde se resolviam os problemas da comunidade, ali se recebia as autoridades o governador, ali se dançava fazia festa. Quando eu cheguei a Vila de Rondônia o governador do Território era o Theodorico Ghaiva, não estou lembrado quem era o prefeito, porém logo depois assumiu a prefeitura o Emanuel Pontes Pinto, aí escrevi uma matéria e enviei pra editoria do jornal O Guaporé e eles gostaram da matéria, o Ari Macedo (jornalista dos melhores), pessoa de quem eu gostava muito, pra minha satisfação gostou muito da minha matéria e começou a me instigar: “rapaz você precisa voltar a escrever”. Então comecei a mandar artigos e o Emanuel Pontes Pinto que era o dono do jornal me nomeou Diretor de Sucursal em Vila de Rondônia.
Zk – Agora além de Contador você passou a ser diretor de jornal em Vila de Rondônia?

Arlindo Xavier – Pois então! Consegui fazer a circulação do jornal O Guaporé em 1976 de 400 exemplares por dia a tal ponto, que num concurso promovido pelo O Guaporé para o público eleger o clube mais querido do Território quem ganhou foi o Vera Cruz que era da Vila de Rondônia, isso porque o jornal O Guaporé circulava mais em Vila de Rondônia do que em Porto Velho. O Emanuel Pontes Pinto é uma pessoa fora de série, é igual ao Euro Tourinho se Deus fez melhor ficou pra ele.
Zk – Você atuou em Rádio?

Arlindo Xavier – Atuei como comentarista, mais como ponto de apoio no programa do Camata que era apresentado na Rádio Alvorada. Fazia comentários sobre política. Depois quando vim para Porto Velho coordenar a campanha do Odacir Soares para o senado em 1990, fui fazer o programa “A hora do povo” na Rádio Rondônia FM, antes o Taborda apresentava o programa chamado “Cartão Vermelho” e eles queriam mudar de nome e eu sugeri “Hora do Povo”.
Zk – Por que hora do povo?

Arlindo Xavier – Esse era o nome do jornal do Movimento Revolucionário 8 de Outubro – MR-8, como eles nunca reclamaram o programa ficou com o nome.
Zk – Quer dizer que você fazia parte da turma dos “vermelhinhos” de Ji-Paraná, Claudionor Roriz, Dionísio Xavier?

Arlindo Xavier – Fui militante comunista no estado do Paraná fui dirigente do Partido Comunista, cheguei a ser secretário da organização, fui secretário de finanças do partido.
Zk – Como foi que o Teixeirão conseguiu eleger os três senadores naquela primeira eleição de Rondônia estado?

Arlindo Xavier – (Depois de relutar muito em falar). Aquela eleição foi meio cabeluda. (sorrindo) Como diria o Magri aquele que foi Ministro do Trabalho do “imechível”, aquelas eleições são “incomentáveis”.
Zk – Qual o problema?

Arlindo Xavier – Foi uma pressão muito grande, o Teixeira na véspera da eleição foi pra televisão falar, fazer propaganda eleitoral, foi um acinte, uma total falta de respeito. O Teixeirão na véspera da eleição foi pedir voto para os candidatos dele através da televisão, ele deveria ser preso.
Zk – Na sua concepção os três candidatos, Galvão Modesto, Claudionor Roriz e Odacir Soares não fosse o teixeirão teriam sido eleitos?

Arlindo Xavier – Na verdade, o grande político ali era o Odacir. Se não houvesse aquela pressão toda o pleito teria sido empate, o PMDB teria feito 12 deputados e a ARENA 12, com a pressão eles fizeram 15 deputados estaduais e o PMDB fez 9; Eles fizeram 5 deputados federais e o PMDB fez apenas três e mais, nessa campanha o PDS fez todos os prefeitos.
Zk – Você era de qual partido?

Arlindo Xavier – Na época eu era do PMDB. Acontece que eu havia sido do MDB lá no Paraná e no Mato Grosso, quando cheguei aqui tentei entrar no partido e houve certa resistência por parte do Zé Viana e do João Dias ele temiam perder a liderança então me afastei e fui fazer a campanha do Odacir. Eu era contra o governo militar e o cara mais contra o governo do Território que era o Guedes era o Odacir Soares, inclusive ele foi processado pelo Guedes. O Guedes tinha raiva de duas pessoas em Rondônia era do Odacir Soares e Arlindo Xavier, vamos esclarecer que essa eleição foi para deputado federal e não pra senador. 
Zk – Foi justamente por isso que o Odacir perdeu pro Isac Newton?

Arlindo Xavier – Exatamente. O Odacir era presidente da ARENA e por isso era candidato nato. Naquela eleição Rondônia tinha direito a duas vagas de deputado federal. Cada partido podia lançar quatro candidatos pra cada vaga. O MDB lançou o Jerônimo, Abelardo, Paulo Struthos e um outro que não lembro o nome. A ARENA lançou o Odacir, Isac Newton, Prof. Matias e o João Bento. 
Zk – Como foi a história dessa eleição do Isac Newton?

Arlindo Xavier – O Odacir recebeu numa reunião que estava a Mariza Castiel. E outras expressões da ARENA, o governador Guedes que trouxe do presidente Gaisel uma determinação pra que o Odacir saísse candidato e colocasse o Assis Canuto, o Godoy e um outro, o Odacir não aceitou a imposição, foi um radicalismo infantil por parte do Odacir, a Marize Castiel foi contra também o Palácios de Guajará Mirim também e o Guedes por não conheci ninguém não tinha candidato. Bom o Odacir me chamou e disse, o Isac ta aí na sala de reunião, vai lá e ver se você convencesse ela sair candidato. Fui eu que convenci o Isac sair candidato a pedido do Odacir. O Isac foi chamado pelo Guedes e o governo fez uma campanha pesadíssima contra o Odacir e o resultado geral das eleições daquele ano foi pela ARENA Isac Newton e pelo MDB Jerônimo Santana. Nom dia da eleição eles tinham 150 veículos e 2 milhões de cruzeiros para gastar. Nós o Odacir tínhamos, 13 mil cruzeiros pra gastar e apenas três veículos, mesmo assim nós ganham,os a eleição deles em Ji-Paraná. O Ney Góes comandou a campanha do Isac Newton. Essa minha “briga” com o governador Guedes já vinha da eleição para vereador.
Zk – Que eleição pra vereador?

Arlindo Xavier – Nós viemos aqui em Porto Velho propor ao Guedes o Nenéu como nosso candidato a vereador por Ji-Paraná, naquele tempo só existiam dois municípios em Rondônia Porto Velho e Guajará Mirim e Ji-Paraná ou Vila de Rondônia pertencia ao município de Porto Velho. Bom, quando chegamos aqui o e apresentamos o nosso candidato o Guedes disse que já tinha um candidato para Vila de Rondônia que era o Wadih Darwiche Zacarias, nós contestamos dizendo, ninguém conhece Wadih Darwiche lá, e o governador respondeu: “Não interessa o Valter Bártolo vai fazer a campanha dele”; e nós, o Valter não é político – “Não interessa, eu não gosto de político, gosto de trabalho”. O Nenéu que era o nosso candidato então falou: “Governador nós viemos no lugar errado, se o senhor não gosta de político, nós somos políticos”. Tinha um detalhe, pra entrar no gabinete d Arlindo Xavier –

o governador Guedes tinha que ser de gravata ele não recebei ninguém em seu gabinete sem terno e gravata. Nós lançamos o Nunoy e ganhamos eleição com 1.063 contra 100 votos do Darwiche.
Zk – E a história do primeiro prefeito de Vila Rondônia?

Arlindo Xavier – Vila Rondônia não era nada, não era distrito nem nada. O Cloves Arraes quando eu cheguei era o administrador, mas, não tinha recurso para administrar nada. Quando o Antônio Cabral Carpintero foi prefeito aqui nomeou o Valter Bártolo administrador da Vila de Rondônia. Na posse do Valter eu fiz um discurso agradecendo ao Carpintero porque nos mandava um administrador que bebia pinga como nós bebíamos então nós tínhamos um prefeito pinguço igual a nós, foi uma risada só, O Valter realmente agradou todos nós como administrador da Vila. 
Zk – Com toda essa vivência política, você chegou a disputar algum cargo político?

Arlindo Xavier – Em 1982 fui candidato a deputado estadual pelo PMDB e fiquei com a terceira suplência. Na verdade eu não podia ser candidato porque eu me declarava não religioso e o PMDB em Ji-Paraná era formado em por evangélicos. Eu bebia cachaça, eu jogava bozó no bar do Cuiabana até as três horas da madrugada, coisas que os evangélicos não admitiam aí era difícil ganhar a eleição. Não tinha dinheiro, não tinha carro, não tinha nada e ainda fazia tudo que os evangélicos detestam. Na verdade minha candidatura era mais farra.
Zk – Vila Rondônia não vivia apenas de política e colonização, com certeza existiam casas de diversão. Quem comandava o puteiro em Vila de Rondônia?

Arlindo Xavier – Quando cheguei lá tinha existido a Júlia Cacete. O apelido diz tudo, ela tinha se apegado a tentos homens que passou a ser chamada de Júlia Cacete, Ela era uma mulher decidida, trabalhava muito, mexia com peixe e morava no núcleo inicial de Vila de Rondônia. Do outro lado do Rio onde hoje fica o Complexo Beira Rio já existia uma “zona” que ficou conhecida como 4 Bicos. Foi o Bianco em sua primeira gestão como prefeito quem tirou essas casas de lá e levou lá pro Jardim das Seringueiras uns seis, sete quilômetros do centro da cidade.
Zk – Vamos começar a encerrar a entrevista. Entre Jerônimo Santana e Teixeirão, qual a diferença?

Arlindo Xavier – Como liderança política o Jerônimo foi a maior liderança que já houve aqui, tanto que se elegeu três vezes deputado federal, foi prefeito de Porto Velho e foi o primeiro governador eleito. Como governador deixou a desejar. Já o Teixeira era diferente, ele não admitia ninguém mandando mais que ele, era ele e pronto.
Zk – Dos governadores do estado de Rondônia qual o que mais lhe decepcionou?

Arlindo Xavier – Sem sombra de dúvidas, foi o Piana.
Zk – Para encerrar mesmo.

Arlindo Xavier – Estou aqui por que vou me submeter a uma cirurgia de catarata. O deputado Euclides Maciel me fez um convite pra vir pra cá, estou estudando a possibilidade, atualmente sou assessor do secretário de finanças do Bianco, aliás, o Bianco está fazendo uma ótima administração em Ji-Paraná.
Zk – Mulher e filhos?

Arlindo Xavier – Sou casado há 49 anos com a dona Agostinha Xavier, temos cinco filhos quatro homens e uma mulher. Os quatro homens gostam de mulher e a única mulher gosta de homem.

Fonte: zekatraca@diariodaamazonia.com.br